Kapitu

Kapitu

Recentemente escrevi um artigo gigantesco sobre o estado (precário) da cena musical local em Niterói/Rio de Janeiro, comparando-a com a situação de bandas “grass roots” da Inglaterra. Descobri que os países tem muito em comum quando se trata de musica no fim da cadeia alimentar mas, realmente a situação das bandas fazendo musica autoral, especialmente se for “indie” ou rock alternativo, é mais complicada ainda aqui. https://hardpresseded.wordpress.com/2015/12/01/rock-in-rio-literally/

O artigo em questão foi escrito baseado em entrevistas conduzidas através de email e pessoalmente, e contei com a participação de membros do Barcamundi, Ambstract, Anxtron e o projeto “On The Rock”, além da grande contribuição do Fabricio Figueiredo do Útero Ruídos e Victor Cunha de A Conspiraçao Produçoes. Porém, uma participação que chegou tarde demais para ser incluída mas é tão interessante que merece publicação, vem do Felipe Viana, vulgo Jahba, guitarrista da banda Kapitu. Ele conseguiu abranger todas as ideias do artigo original de uma forma interessante, especialmente vindo do ponto da vista de uma banda que já conseguiu avançar um pouco mais nas estradas do rock brasileiro.

Kapitu é uma banda que combina aquele som clássico da música brasileira, reminiscente dos anos oitenta, com uns ares de “hard rock” contemporânea. O resultado é mais que agradável; com composições bem pensadas, repletas de uma variedade de “riffs”, refrões marcantes e, de vez em quando, um solo fulminante. Sem medo de misturar os estilos e ritmos, a banda consegue abranger vários aspetos do “rock n roll” e manter uma qualidade invejável.

A seguir estão as respostas profundas do Jahba sobre a cena musical do Brasil:

Quais são as dificuldades mais comuns do cenário musical no Rio?
Acho que a dificuldade maior de se tocar no Rio de Janeiro, fazendo som autoral, é conseguir espaços com boa estrutura de som para tocar. Há um circuito independente no Rio relativamente extenso, mas, no geral, ou são casas underground ou são lugares que não têm shows mas são adaptados pros eventos acontecerem. Isso prejudica muito as apresentações. É ótimo tocar nesses lugares e sempre serão o berço das bandas de rock e nunca devem sair do circuito, mas esses são praticamente o ÚNICO espaço que a cena independente tem.
Se a gente pegar como exemplo nossa cidade, Niterói, quase exclusivamente uma única casa abarca esse tipo de evento, o Convés. Quem é mais das antigas vai se lembrar que existiam outros espaços como o Arab’s Café (em Piratininga) ou a BOX 35 e São Dom Dom (ambos na Cantareira).

A Internet ajuda ou atrapalha as bandas?
Ajuda (e muito!), mas se você souber usá-la. No princípio (ou para sempre), você não vai ter rádio, televisão. Sua vitrine vai ser a internet. Lá é o canal oficial da banda e onde você vai divulgar as primeiras demos, lançamentos de EPs e discos, clipes, vídeos ao vivo. No começo da banda será seu círculo de amigos e companheiros de som que divulgarão seu trabalho.
O erro que muita gente comete é achar que a internet é um local à parte do mundo e que as coisas andam sozinhas, por si só. Primeiro, a internet está o tempo todo em diálogo com as movimentações da “vida real”, ou seja, você precisa estar em conexão com os produtores, bandas, agentes públicos da sua região. É preciso sair de casa e tocar, tocar, tocar, tocar. A internet virá dialogando, complementando e amplificando tudo isso.
Segundo, você precisa divulgar seu material ativamente. As pessoas não vão escutar sua música uma vez e pensar que você é um gênio e automaticamente seu som vai viralizar no mundo inteiro. Tem que tomar a postura de enviar todo o material que estiver produzindo para todas as pontes possíveis. E, de maneira contínua, estar sempre atualizando o material.

O cenário musical aqui do Rio é muito competitivo?
É competitivo no sentido de que tem muitas, muitas bandas de alta qualidade circulando por aí. Só em Niterói sei de cabeça umas seis bandas que já lançaram materiais de alto nível. Facção Caipira, Bow Bow Cogumelo, Parola, Lougo Mouro, Bezouros Verdes, RivoTrio. E teriam outras que nem material lançaram ainda…
Repito: essas são as que eu mais conheço e as de Niterói. Existem muitas, muitas mais.

Kapitu 2

Dá para ganhar dinheiro com música aqui?
Dá sim. Na Kapitu, Marcolino e Yuri, por exemplo, vivem de música. Eles participam de outros projetos, autorais e não autorais, e seguem esse caminho. Mas é importante lembrar que viver de música autoral, é muito difícil. Um caminho que poucos ainda conseguiram traçar, mas que, depois de uma longa estrada, é possível sim.

Em relação a música, quais são seus planos de curto e longo prazo?
Vou responder aqui pelo KAPITU. O plano sempre foi poder fazer nosso som da maneira mais honesta e autônoma possível. Até agora, penso que conseguimos fazer isso. Mas o caminho é longo!

É fácil de se arrumar lugar para tocar aqui, e/ou de se produzir e fazer seu próprio show?
Não… Mas como te disse, desde 2008 estamos circulando de maneira quase frenética. Tocamos em muitos lugares, participamos de festivais, shows coletivos, viajamos, etc. Já temos um público que nos acompanha e sempre recebemos convites para participar de shows e fazer parcerias. Isso não quer dizer que nos acomodamos. Continuamos produzindo nossos shows e produzindo nosso material. Temos de fazer constantes reuniões para planejar as coisas, como produzir vídeos, músicas, compor, dar entrevistas. Acho que quanto mais subimos, mais tarefas, e cada vez mais complexas, vão aparecendo. Nossas últimos desafios foram produzir todas as etapas de confecção do disco, fazer um “crowdfunding” e produzir um clipe!

Com que frequência sua banda ensaia?
Semanalmente, por 3 horas. Mas dependendo da atividade que estivermos mais engajados, concentramos mais nisso. Por exemplo, no começo da banda ensaiávamos até 2 vezes por semana. Antes do primeiro show compomos e ensaiamos durante 10 meses. Na época de gravação do último disco, o “Vermelho” (2015), chegamos a ficar várias semanas tocando quase que diariamente para terminar os arranjos. Em épocas que temos que nos concentrar mais na produção executiva da banda, podemos substituir o ensaio por reuniões também.

Você gostaria de contribuir mais alguma coisa?
Não sei se teria algo mais a acrescentar. Só gostaria de reforçar para galera que está começando: se organizem, toquem em qualquer buraco e façam exaustivos ensaios! Ter controle sobre o que se está fazendo exige muita responsabilidade, humildade e trabalho. Ser roquenrou é arriscar e meter a cara por aí! Então, mãos à obra! Te juro que é compensador.

Muitíssimo obrigado Felipe pelo seu tempo e suas respostas legais. Valeu!

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